terça-feira, 10 de setembro de 2013

Erros: Indicadores de vida


Fiquei atarantado hoje pela tarde, quando ouvi alguém proferir: “Você não aprendeu com seu irmão. Tá vendo... Você deveria ter aprendido com o erro dele!”
Sempre ouvi, e acredito que você também, o adágio popular que diz: “Aprenda com o erro dos outros.”
Achava interessante e, por algumas vezes, usei também este adágio. Hoje, ele me ecoou um tanto quanto fastiento. Não sei se pelo contexto... Talvez!
Mas penso que tal adágio mereça reflexão:
Aprender com o erro do outro. Como funciona isso?
Vê que o outro errou e não fazer o que ele fez de errado. Pronto. Está resolvido. Seria fácil e sem graça, não acha?
E o processo de vir a ser sendo e acontecendo, destruindo e re-construindo, desfazendo e re-fazendo, desaprendendo e re-aprendendo, morrendo e re-vivendo... Estas são pérolas da vida que são conquistadas na vivência, na prática, no toque, no “estar com”, no movimento da existência.
Aprender com o erro alheio, sim acontece.
Porém, aprender com seus próprios erros é garantia de estar vivendo, existindo e reinventando a vida ao mesmo tempo em que se mistura com ela.


Ildeilson Santos.

domingo, 8 de setembro de 2013

Apenas um rascunho


Quem é a senhora?
Esta pergunta foi feita a uma terna senhora na porta da emergência de um hospital.
Gentilmente ela respondeu: “Apenas um rascunho”.
Aquela terna senhora com as mãos seguras nas grandes do portão e com semblante preocupado causou-me um imenso espanto.
- Como pode alguém ser “um rascunho”?
Pronto, comecei uma viagem ao mundo dos rascunhos...
O que ela quis dizer?
- Não sei e não tive coragem de perguntar.
Assim, iniciou um processo de crise dentro do meu ser.
O rascunho seria:
O inacabado?
O processo de vir a ser?
A confluência da vida?
A mistura de pequenos encontros?
Aquilo que em mim acontece quando me deparo com a dor que não é minha?
Ou apenas o devaneio de uma mente perturbada?
Não sei, não sei e não sei...
Só sei que a vida da terna senhora me afetou com o seu poder de vivência, empurrando-me para sentimentos inusitados e carregados de sentidos ocultos.
Neste lugar, que também é o não lugar, fico confuso com tantas chegadas e partidas, as vezes penso até que meu coração não vai suportar. É nesta hora em que me pego alimentando sonhos de cotidianos estreitos e previsíveis. E assim, prefiro continuar a confluência de esperanças futuras, mesmo diante das incertezas. Acompanhando a ternura do olhar daquela senhora que com suas mãos seguras nas grades do portão, reponde: “Apenas um rascunho”. 
Ildeilson Santos

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Metamorfose





A “alomorfia” é como a antonomásia perfeita quando se é compreensível,
Desdizendo com tenacidade o adágio outrora.
Nos avessos emaranhados do ser,
Como ondas que ricocheteiam seus objetivos num instante.
Numa “metamorfose” a espera do amanhã que já foi,
Na certeza do atualmente que nunca chega.
 

Ildeilson Santos

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Com o passar do tempo...




O que acontece às pessoas com o passar dos dias?
Com o passar dos dias situações antes insolúveis revelam-se com ar de possibilidades, caminhos sem direção, agora são sinalizados.
Pessoas antes desconhecidas aquecem-nos com o seu calor, as conhecidas, no entanto, oferecem o frio da distância.
Mentiras outrora condenadas, possui hoje a ternura de acalentar a alma.
Músicas execradas apenas em ouvir, hoje compõe o mais terno coral e não paro de assobia.
Verdades estabelecidas e inegociáveis não passam de historietas que às vezes nem quero me lembrar.
Sorrio apenas em lembrar, do medo que tinha de me perder.
Hoje, após alguns anos de vida, não tenho mais o mesmo vigor, não chegarei ao objetivo com tanta velocidade, porém, tenho mais experiência e chegarei com mais intensidade.
Tudo Sempre Muda. Sempre Muda Tudo. Muda Tudo Sempre.

Ildeilson Santos



quarta-feira, 12 de junho de 2013

Metade



Alguém me indagou: “Parou de sofrer”?
Fiz cara de paisagem sem entender a motivo da pergunta.
Ela prosseguiu: “Parou de escrever, cessou de colocar seus sentimentos no papel, sinto saudade de seus textos”.
Pensei comigo: Sentes saudades do meu sofrimento!
Lembrei-me de meu avô quando dizia: “A aflição de alguém servirá de alento para outrem”.
Somos feitos de metade.
Metade que se alegra e metade que fica triste.
Metade que rir com uma canção e a outra metade chora com a mesma canção.
Metade que quer ficar e metade que quer partir.
Metade que quer continuar falando e metade que prefere o silêncio...
Em quantas partes se divide a metade?

Ildeilson Santos

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sempre mais...



Do meio do "nada" surge o "tudo" como uma força arrebatadora, como quem veio para ficar, colocando a fé sobre a mesa, questionando o sagrado e sacralizando o profano. Não se admire de minhas palavras, pois tu és bem mais profano que sagrado, basta simplesmente olhar para dentro de si mesmo.
Às vezes sinto saudade de quando era inocente, acreditava no modelo preestabelecido, no dito como certo, verdadeiro, na história contada a partir dos vencedores, mas toda história tem suas versões, inclusive a sua. Mas comi da fruta proibida e meus olhos abriram, percebo hoje, novos horizontes, caminhos que levam a lugares ainda não desbravados por mim mesmo, caminhos estes que você quer muito conhecer. A beira da estrada há vários jardins repletos de frutos que dizem ser proibidos, talvez por isso sejam tão cobiçados. Então a vida ficou assim meio que apimentada. Difícil é controlar o ardor que queima os lábios, língua, boca, alma, coração e tudo o que funciona como engrenagem para que a vida seja sempre mais.


Ildeilson Santos

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O Absurdo no útero


Já há alguns dias me atino a pensar em Deus criador do universo, sustentador do cosmo. Um Deus ilimitado, para além do além. Ao mesmo tempo em que este Deus se revela nos limites do útero de Maria durante nove meses. Como um bom baiano, pensar nesta possibilidade me faz exclamar: “Oxente, como assim?”.
Pensar Deus a partir dos esboços sistemáticos teológicos é de fato crer no absurdo, pois Deus é "algo" que não começa nem termina. Não é possível entender Deus. Tertuliano diz: “Eu creio porque é absurdo”. Deus é absurdo. Ele é tão absurdo que não é possível percebê-lo adsorvido ao tempo e espaço. Ele é “aquilo” que não se pode dizer ou definir, totalmente incompreensivo. Para o homem era simplesmente impossível aproximar, ver, tocar ou sentir Deus. Mas, no tocante a isso, o absurdo torna-se ainda maior. Deus é tão absurdo que se diminuiu até que chegou ao útero, fez-se homem. Deus no útero é um absurdo, Ele se esvazia d’Ele mesmo, se diminui, sendo Homem e Deus.
Deus encarnou em Jesus de Nazaré, que nasceu em Belém da Judeia. No natal, comemoramos o dia em que Deus ficou do tamanho do homem. Veja só que loucura! Deus do tamanho do homem. 
Só é possível percebermos Deus através de Jesus, só é possível pensar em Deus através de Jesus, só é possível sentirmos Deus através de Jesus. Deus se relaciona com o homem através de Jesus. Sendo assim, só posso falar de Deus tocando em Jesus. “Há um só Deus e mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem”. Ou seja, quando nós quisermos pensar em Deus, temos que pensar em Jesus. Qualquer outra coisa que pensarmos de Deus e não passarmos por Jesus, certamente estaremos designados ao erro. Tudo o que pensamos sobre Deus, tem que está em Jesus. Se a fala sobre Deus não condiz com Jesus, então, esta fala não tem valor algum, é palha.
Jesus disse assim: “Quem me viu a mim, viu o Pai”.  Creio, por isso é absurdo. Jesus é Deus. Toda fala sobre Deus aponta para Jesus, se assim não for, não há Deus.
Jesus é a exata expressão de Deus o Pai. Paulo disse: “Em Jesus habitou a plenitude da divindade”.
A igreja cristã tem vivido a dois mil anos tentando mostrar que Jesus é igual a Deus, penso que chegou a hora de mostrarmos que Deus é igual a Jesus.
Deus, o absurdo, ele é espírito, intocável, invisível, inalcançável. Contudo, Jesus está entre nós, ele é carne, palpável, visível, alcançável, este é o verdadeiro sentindo do natal. Deus é igual a Jesus, por isso se torna possível, és um absurdo ainda maior.
O natal é a data mais extraordinária do calendário cristão, pois o Deus inacessível, absurdo, se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória. Isso é natal. Por isso Ele é Emanuel (Deus misturado no barro).
Natal é Deus no útero, é Deus na gente e com a gente, é o Deus gente.
O natal é a evidência que só encontramos Deus em Jesus Cristo homem, é no mundo dos homens que encontramos Deus.
Onde está Deus no mundo dos homens? Nos homens. É por isso que a Bíblia diz que a Igreja é o corpo de Cristo. Quem quer encontrar a Deus, precisa procurá-lo no mundo dos homens. Deus está na terra, no homem.
Nós não habitamos a “espiritrosfera”, nós habitamos o planeta terra. Nós não vamos experimentar Deus em arrebatamentos para o céu, Deus só pode ser experimentado no mundo dos homens.
O natal é o encontro das relações, do amor, do perdão, da gratidão, do aconchego, do carinho, do sorriso, do abraço, da família, da alteridade, da cumplicidade, da harmonia, da bondade, da troca de presentes, da mesa comunitária.
Natal é sair do nosso casulo de egoísmo orgulhoso para abraçar o outro, para olhar o outro, tocar no outro. Natal é a experiência de acolhimento, afeto e amor. Natal é ser-no-mundo-com-o-outro.
O natal é gente encontrando gente; é Deus em Jesus tornando-se gente.
Feliz natal.
Ildeilson Santos
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